sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

A fama dos quase sem nome

"Diz que o mundo ia se acabar, pois o mundo se acabou, a derrota de um circo queimado é um mundo representado, porque o mundo é redondo e o circo arrendondado, por este motivo, então, Gentileza não tenha sossegado." ( modinha criada por Gentileza)


Na tarde de 17 de dezembro de 1961, um funcionário demitido do Gran Circus Norte-Americano, em Niterói, ateou fogo à lona durante um espetáculo. Cerca de 400 pessoas morreram, em sua maioria crianças. Seis dias depois, um empresário de nome José da Trino (ou Datrino) deixou tudo o que tinha, incluindo mulher e filhos, para consolar as vítimas. Mudou-se para o local, onde plantou um jardim com flores. 

Nos 35 anos seguintes, andaria pelas ruas, ônibus e barcas do Rio pregando a bondade. Seu lema: gentileza gera gentileza. Quando criança, amansava animais em Cafelândia, interior de São Paulo. Andarilho na Cidade Maravilhosa, dizia-se "amansador dos burros-homens da cidade que não tinham esclarecimento". 

Nos anos 1980 pintou mensagens em 55 pilastras do Viaduto do Caju, próximo à rodoviária da cidade. Meus filhos, bem vindo ao Rio. Gentileza gera gentileza amor beleza perfeição bondade e riqueza. Em 1997 a companhia de limpeza urbana da cidade jogou uma camada de cal em cima dos escritos. Como cantou Marisa Monte na música Gentileza, que o homenageia, só ficou no muro tristeza e tinta fresca. Dois anos depois, o projeto Rio com Gentileza, sob a coordenação do professor Leonardo Guelman, da Universidade Federal Fluminense, iniciou a restauração das pilastras, que receberam proteção especial de poliuretano para aguentarem as intempéries. 

A túnica branca adotou em viagem a Ouro Preto, por sugestão de estudantes que lá o acolheram. Com o tempo, foi ganhando bordados. Eram quatro. Um deles: Não usem problemas. Não usem pobreza. Usem amor e gentileza. Carregava um estandarte com flores, bandeira do Brasil, catavento e dizeres. Assim justificava: "As flores são porque eu sou o jardim ambulante"; a bandeira, porque "é a mais linda do universo"; e o catavento, "para refrescar a mente da humanidade". 

Durante a Eco-92, colocou-se estrategicamente no caminho dos participantes. Queria que sua mensagem de amor chegasse a outros cantos do planeta. Por vezes foi confundido com mendigo. Quando alguém lhe oferecia esmolas, recusava: "Não quero seu dinheiro. Quero seu espírito para Deus." 

Em 1996, doente, passou seus últimos meses de vida na cidade de Mirandópolis, em São Paulo. Morreu em 29 de maio daquele ano, próximo à família.Em virtude do desgaste sofrido pelas pinturas de Gentileza ao longo do tempo e com seu falecimento, todo este patrimônio acabou sendo encoberto. Em 2000, o projeto "Rio com Gentileza" entregou à população carioca os Escritos Murais do Profeta Gentileza totalmente restaurados. A obra é considerada como uma das maiores expressões de arte mural pública, de caráter espontâneo, que se conhece na cidade.


Fontes: Almanaque Abril 
Projeto de Graduação de Mariella Lima Pimentel - Sem eira nem beira
(Por Larissa Pereira Fraga)

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Escalas e tempos do habitar

Pesquisando sobre “o habitar”, acabei encontrando este texto que achei bem interessante e que retrata as diversas formas de habitar, tanto no coletivo, como semicoletivo e no habitar individual.
(Disponível no site: http://infohabitar.blogspot.com/2011/09/sobre-humanizacao-do-habitar-algumas, acessado em 01 de novembro de 2011.)
“A habitação que está também na rua e está também na praça, e as deve marcar subtilmente, e se não estiver é porque não se está a habitar a cidade e não se estando a habitar a cidade estão a criar-se problemas que, tal como uma doença não tratada, irá piorar e mesmo quando remediada, depois de se ter desenvolvido de forma crítica, deixa, frequentemente, sequelas graves.
O habitar tem de ser cumprido como um verdadeiro programa existencial e afinal até onde ele não deve ir como espaço cuidado e humanizado?
“O habitar não está limitado só ao habitat, ao universo doméstico... O conforto este termo franglês que designa... estar bem num sítio é um objetivo tão pertinente para o habitat como para a escola, a biblioteca, a oficina ou o ginásio... espera-se... que a cidade seja habitável… que o peão encontre mais do que um passeio obstruído para deambular..., que seja um espaço onde o ancião possa dispor de um banco para retomar o fôlego, a criança de um caminho protegido para ir para a escola ou a casa de outros jovens… esta habitabilidade pensada para corpos frágeis não estaria completa se a sua disposição não tivesse em conta a qualidade dos espaços atravessados, sequência de imagens percebidas ao ritmo do caminhar” (Daniel Pinson, 1996, p.96).(1) Tal como refere Joaquín Arnau (2000) (2) “a dialética da Cidade e da Casa é a do todo e das partes. A questão do que surgiu primeiro, na história da Arquitetura, é totalmente irrelevante. Seja como for, as casas fazem parte da cidade, que totaliza o seu sentido… Em qualquer casa, no entanto, há uma certa vocação de cidade. Não é concebível uma casa isolada. Fisicamente pode ser; economicamente, não… Se a casa não é peça de cidade e subsiste .. a casa é a cidade... Peça de cidade ou pequena cidade em si mesma, cidadela, a casa traz consigo a qualidade urbana. E a Arquitetura, através da casa, urbaniza a paisagem... A cidade, como diz Alberti, é uma casa grande.”
Falámos das escalas como níveis, como camadas sobrepostas, mas, naturalmente, a escala é também desenho específico e seja numa acepção literal seja numa mais lata é realmente um conceito fundamental no espaço arquitetônico.
É assim mesmo o habitar. É e tem de ser cumprido como um verdadeiro programa existencial, como se fossem três habitar (es) interactuantes e complementares:
. Público – nos espaços da cidade e destes aos espaços íntimos, mas abertos das vizinhanças
. Razoavelmente coletivo – nos espaços íntimos, mas abertos das vizinhanças e destes até à entrada das nossas casas
·. Privado, nos espaços da casa.
Lembrando o sempre essencial Norberg-Schulz pode-se dizer que para habitar em plenitude é necessário que se proporcione uma adequada capacidade de habitar como “programa existencial”, nestas três “dimensões” ou escalas e/ou tempos.”.
Por: Jocasta Mazocco Uliana

terça-feira, 29 de novembro de 2011

A condição humana

Para Hannah Arendt, em seu livro “A condição humana”, o termo público refere-se a dois fenômenos similares, porém não perfeitamente idênticos. Em primeiro lugar, tudo que é público pode ser visto ou ouvido por todos. Para nós a aparência – aquilo que é visto e ouvido por nós mesmos- constitui a realidade. Associado ao fato de que a realidade ocorre de algo que possa ser visto e escutado, até mesmo as forças da vida íntima – paixões, pensamentos – caracterizam uma espécie de existência duvidosa e obscura, até que sejam transformadas de modo a se tornarem adequadas à aparição pública; transformação decorrente na narração de histórias e na transposição de experiências individuais. Todas as vezes que se falam em coisas que só podem ser experimentadas na privatividade, esta retoma uma esfera na qual assumirá uma espécie de realidade, que independente de sua intensidade, jamais poderiam ter tido antes.
O sentimento mais intenso que conhecemos, é ao mesmo tempo, o mais privado e menos comunicável; não apenas por ser tratar da única experiência que somos incapazes de adequá-la a uma exposição pública, mas também por nos privar da percepção da realidade, a ponto de ser facilmente esquecida.
Visto que a nossa percepção da realidade depende da aparência e assim, da existência de uma esfera pública da qual possam emergir da treva da existência, até mesmo a meia-luz que ilumina a nossa vida privada e íntima deriva, da luz muito mais intensa da esfera pública, porém há coisas que não suportam a luz da constante presença de outros na esfera pública. O que não significa que as questões privadas sejam irrelevantes, pelo contrário, muitos assuntos relevantes só podem sobreviver na esfera privada.
O que a esfera pública considera irrelevante pode ser tão contagiante que pode ser considerado como modo de vida, sem que o caráter essencialmente privado seja alterado.
Em segundo lugar, o termo público significa o próprio mundo, comum a todos e diferente do lugar que nos cabe dentro dele. Este mundo, não é idêntico à natureza como espaço limitado para o movimento dos homens. A esfera pública atribuída como mundo comum, reúne-nos na companhia uns dos outros e evitam conflitos; o que torna tão difícil a convivência em sociedade de massas é fato de que o mundo entre elas perdeu a força de mantê-las unidas, de relacioná-las e separá-las.
 Para manter uma comunidade destituída de interesse num mundo comum, é conhecido apenas um princípio que encontra um vínculo entre os homens, forte o bastante para substituir o mundo. A edificação da caridade em todas as relações humanas proposta pela antiga filosofia cristã de Agostinho corresponde claramente à experiência geral do amor, que é ao mesmo tempo diferente deste último por ser algo que se interpõe entre os homens. Embora o vínculo entre as pessoas seja incapaz de criar uma esfera pública própria, é adequado ao princípio fundamental cristão de guiar por este mundo um grupo de pessoas essencialmente situadas fora dele.

Livro "A condição Humana" de Hannah Arendt.
(Por Larissa Pereira Fraga)

“A casa sem paredes"

Como Vilanova Artigas já dizia: “A casa não termina na soleira da porta”.
Entendemos como casa, habitação, as tradicionais, que possuem portas, paredes, telhados, mas esquecemos de que existem “habitações” que não possuem estas identidades, mas que cumprem o mesmo papel. Os caminhoneiros são um exemplo deste tipo de habitação. Usam a cabine do caminhão, como sala, quando em seu painel vêm as imagens mais diversas durante o dia, usam como quarto o sofá para dormir e descanso, cozinham em paradas com seus fogões a bordo e nesse veículo, fazem suas moradias, habitações, andam com seu trabalho e trabalham em casa.
Quem disse que precisamos de paredes e telhado para habitarmos?
Por: Jocasta Mazocco Uliana

Redefinindo a esfera pública

Embora a arquitetura, desde o Renascimento, tenha sido caracteriza como humanista e que as idéias que envolvam este conceito, desde o tempo de Alberti, tenham incluído uma visão orientada para o sentido social do termo, com a necessidade se servir a sociedade, por si só, a arquitetura encontra-se destituída de voz e revela-se ineficiente perante uma tragédia como o 11 de setembro.
Na realidade atual, é de caráter fundamental examinar a arquitetura refletindo sobre conceitos humanistas e heróico, social e individual. Desde o século XVIII, tem sido de sua responsabilidade relacionar-se, concretizar e reformar a sociedade; esse desejo tem sido transformado no campo da utopia e da realidade, sofrendo diversas derrotas. Acredita-se que nunca houve um momento tão propício para revisitar a questões de responsabilidades sociais referente à arquitetura; esta posição justifica-se pelo fato de que, pela primeira vez, a arquitetura surge como fenômeno da mídia e que ao longo da última década foi utilizada de modo justificável, sendo um instrumento de revitalização do interesse por instituições públicas e assim, pela primeira vez, a arquitetura tem uma projeção correspondente aos seus conteúdos.
A arquitetura caracterizou-se como “segundo plano” em muitos momentos da cultura moderna, permanecendo inserida em um estado de abstração, com a pretensão de alcançar um lugar nos debates referentes às formas culturais para valores da sociedade. Semelhantes momentos característicos em períodos de guerra e destruição: a arquitetura enquanto sinal de permanência transforma-se no sinal da transitoriedade das suas ruínas. Ao longo dessas épocas, os debates sobre a arquitetura evitaram uma visão demasiado especializada do mundo e entraram na arena pública, parecendo menos preocupada com as nuances da estética ou da tecnologia. Desde o acontecimento de 11 de setembro de 2001, os momentos de evidência do arquitetônico-cultural têm sido destorcidos pelos atos de terrorismo, que vem provocando a ruptura ou a condensação entre si. Estes atos complicam-se na medida em que o local do World Trade Center, representava para muitos os resultados desafiadores de uma luta já antiga sobre o simbólico e o funcional. Edifícios que se transformaram, durante a destruição, em ícones de um discurso a três tempos: na arquitetura, o da necessidade de uma afirmação de valores contínuos da modernidade e das suas formas: na política, o da necessidade de reconstruir perante a derrota e a ameaça; e o mais árduo, em memoriam, a necessidade de ver o local como memorial de milhares de vítimas do ataque, como local de reflexão. 
Para Anthony Vidler, um dos maiores problemas resultado do desastre do World Trade Center e que a arquitetura pode buscar soluções, é a apropriação do contexto urbano enquanto lugar central para trabalhar e viver e que sejam criadas novas iniciativas, que promovessem a colaboração entre escolas e profissionais no intuito de redefinir a esfera pública.
No novo espaço público do século XXI, novo e criador, a proposta do projeto de reconstrução do local do World Trade Center, deveria propor um local de aspirações, suficiente capaz de responder à tripla questão evocada pelo lugar: resposta heróica a uma agressão da mesma natureza da guerra; resposta arquitetônica aos edifícios destruídos; resposta urbana face às necessidades emergentes; e, sobrepondo-se a todas estas, resposta a necessidade de construção de um memorial e de memória.
Mas para isso, os arquitetos necessitam aceitar o desafio que se aproxima da dimensão de um New Deal para o domínio público da arquitetura. Tal desafio deverá ser definido nas escolas de arquitetura, e será finalidade de nosso trabalho.

Artigo de Anthony Vidler - site Vitruvius
(Por Larissa Pereira Fraga)

domingo, 27 de novembro de 2011

Projetos que buscam resgatar a dignidade dos moradores de rua

Enquanto grande parte da população age com indiferença em relação aos moradores de rua, há grupos que buscam resgatar a dignidade dessas pessoas, desenvolvendo projetos de auxilio, porém cada projeto tem objetivos específicos.

Alguns projetos tem como objetivo oferecer integração social e profissional a pessoas em situação de rua, através de oficinas de artesanato e exposição de peças, como o projeto Ruarte, desenvolvido pela rede de estacionamentos Estapar em parceria com o Fórum das Organizações que Trabalham com a População de Rua. O projeto promove exposições e comercialização dos materiais produzidos por moradores de rua, buscando locais e parceiros que apóiem a iniciativa. O trabalho desenvolvido nas oficinas ensina o morador de rua a transformar o que é tratado como lixo, em artesanato. Segundo a responsável pelo setor social da Estapar "o contato gerado a partir da venda do artesanato ajuda o morador de rua a se socializar pois, na rua, é difícil haver algum vínculo. Além disso, gera um forte impacto dentro das organizações que promovem o Ruarte, o que ajuda a fortalecê-la também", além disso, outro fator contribuinte para socialização do morador de rua, segundo ela "é que ele vê o valor do que produz e sabe que, o que aprende e faz, tem resultado e retorno financeiro, o que o faz se sentir de novo parte da sociedade".

Há também projetos que buscam alfabetizar esses moradores de rua, como o desenvolvido no município de Curitiba, por iniciativa da Fundação de Ação Social (FAS) em parceria com a Secretaria Municipal de Educação. Porém, mesmo havendo uma proposta pedagógica de ensino que desde o início já sofreu várias alterações para atender as necessidades específicas desse público, ainda não está suficientemente adaptada. Além disso, a abrangência e a duração do curso são bastante limitadas, longe de resolver os problemas das pessoas que vivem nessa situação.

Outros projetos buscam amparar, esses moradores, como o Centro de Referência da População de Rua de Belo Horizonte que realiza um trabalho que pretende restituir a dignidade dessas pessoas, garantindo direitos e assegurando a cidadania dos freqüentadores do espaço, aberto à população de rua para lavar roupas, tomar banho, guardar pertences pessoais, ter acesso à internet, cineclube e biblioteca, além de oferecer oficinas de Cultura Popular e Mosaico.

Mas ainda assim, em meio a esses projetos desenvolvidos, muitos tentando, inclusive resgatar essas pessoas das ruas, muitos ainda optam por permanecerem na rua, pois fizeram dela seu espaço para habitar.

(Por Camila Dayanne Lira)

Banalização da questão das pessoas em situação de rua

A miséria que as pessoas em situação de rua representam, é incômodo para a sociedade em geral, como já discutido na postagem sobre “Pessoas Paisagem e Invisibilidade Pública”, porém está constantemente presente na realidade atual, principalmente das grandes cidades. Atualmente quando algo se torna comum, corriqueiro, acaba sendo banalizado, mesmo temas tão sérias como a questão social dos moradores de rua.
Essa situação de banalização pode ser exemplificada por uma cena do filme “À primeira vista“ em que um cego volta à enxergar e ao andar pelas ruas com a namorada, quando vê um morador de rua, pergunta a ela o que é, e ela responde que não é nada.
Essa banalização gera a indiferença discutida na postagem sobre “Pessoas Paisagem e Invisibilidade Pública”. É fato que a indiferença e a insensibilidade estão diretamente ligados, de maneira que, essa insensibilidade tem sido agente de crueldades que têm ocorrido contra moradores de rua, como relata a reportagem “Violência faz parte do cotidiano de moradores de rua”, do Jornal Diário do Grande ABC:

“Na madrugada do dia 11 de maio, cinco moradores de rua foram assassinados enquanto dormiam no bairro do Jaçanã, região norte de São Paulo.[..] O caso emblemático chama a atenção para a violência contra a população que vive nas ruas[..]. Apesar da chacina ser um fato isolado nas estatísticas, atos como agressões, maus-tratos e intimidações são rotina na vida dos moradores de rua da cidade.” 

Além da violência, esses moradores de rua, estigmatizados por grande parte da população, sofrem também com a rejeição. Inclusive, ao buscarem meios de sobrevivência, crianças e adultos vão para os semáforos, fazer malabarismos e acrobacias, vender balas, limpar pára-brisas de carros ou apenas pedir ajuda de qualquer tipo, porém muitas pessoas nos carros ficam aguardando apressadamente a abertura dos semáforos para se livrarem da situação, as vezes com receio de que sejam assaltados (modo de pensar que vem da estigmatização desses moradores de rua), ou até mesmo, com uma indiferença total, como se o fato não lhes dissesse respeito.


Diante disso, podemos perceber a intensa relação que se dá entre pobreza, exclusão, desigualdade e população em situação de rua.

(Por Camila Dayanne Lira)