terça-feira, 29 de novembro de 2011

A condição humana

Para Hannah Arendt, em seu livro “A condição humana”, o termo público refere-se a dois fenômenos similares, porém não perfeitamente idênticos. Em primeiro lugar, tudo que é público pode ser visto ou ouvido por todos. Para nós a aparência – aquilo que é visto e ouvido por nós mesmos- constitui a realidade. Associado ao fato de que a realidade ocorre de algo que possa ser visto e escutado, até mesmo as forças da vida íntima – paixões, pensamentos – caracterizam uma espécie de existência duvidosa e obscura, até que sejam transformadas de modo a se tornarem adequadas à aparição pública; transformação decorrente na narração de histórias e na transposição de experiências individuais. Todas as vezes que se falam em coisas que só podem ser experimentadas na privatividade, esta retoma uma esfera na qual assumirá uma espécie de realidade, que independente de sua intensidade, jamais poderiam ter tido antes.
O sentimento mais intenso que conhecemos, é ao mesmo tempo, o mais privado e menos comunicável; não apenas por ser tratar da única experiência que somos incapazes de adequá-la a uma exposição pública, mas também por nos privar da percepção da realidade, a ponto de ser facilmente esquecida.
Visto que a nossa percepção da realidade depende da aparência e assim, da existência de uma esfera pública da qual possam emergir da treva da existência, até mesmo a meia-luz que ilumina a nossa vida privada e íntima deriva, da luz muito mais intensa da esfera pública, porém há coisas que não suportam a luz da constante presença de outros na esfera pública. O que não significa que as questões privadas sejam irrelevantes, pelo contrário, muitos assuntos relevantes só podem sobreviver na esfera privada.
O que a esfera pública considera irrelevante pode ser tão contagiante que pode ser considerado como modo de vida, sem que o caráter essencialmente privado seja alterado.
Em segundo lugar, o termo público significa o próprio mundo, comum a todos e diferente do lugar que nos cabe dentro dele. Este mundo, não é idêntico à natureza como espaço limitado para o movimento dos homens. A esfera pública atribuída como mundo comum, reúne-nos na companhia uns dos outros e evitam conflitos; o que torna tão difícil a convivência em sociedade de massas é fato de que o mundo entre elas perdeu a força de mantê-las unidas, de relacioná-las e separá-las.
 Para manter uma comunidade destituída de interesse num mundo comum, é conhecido apenas um princípio que encontra um vínculo entre os homens, forte o bastante para substituir o mundo. A edificação da caridade em todas as relações humanas proposta pela antiga filosofia cristã de Agostinho corresponde claramente à experiência geral do amor, que é ao mesmo tempo diferente deste último por ser algo que se interpõe entre os homens. Embora o vínculo entre as pessoas seja incapaz de criar uma esfera pública própria, é adequado ao princípio fundamental cristão de guiar por este mundo um grupo de pessoas essencialmente situadas fora dele.

Livro "A condição Humana" de Hannah Arendt.
(Por Larissa Pereira Fraga)

“A casa sem paredes"

Como Vilanova Artigas já dizia: “A casa não termina na soleira da porta.
Entendemos como casa, habitação, as tradicionais, que possuem portas, paredes, telhados, mas esquecemos de que existem “habitações” que não possuem estas identidades, mas que cumprem o mesmo papel. Os caminhoneiros são um exemplo deste tipo de habitação. Usam a cabine do caminhão, como sala, quando em seu painel vêm as imagens mais diversas durante o dia, usam como quarto o sofá para dormir e descanso, cozinham em paradas com seus fogões a bordo e nesse veículo, fazem suas moradias, habitações, andam com seu trabalho e trabalham em casa.
Quem disse que precisamos de paredes e telhado para habitarmos?
Por: Jocasta Mazocco Uliana

Redefinindo a esfera pública

Embora a arquitetura, desde o Renascimento, tenha sido caracteriza como humanista e que as idéias que envolvam este conceito, desde o tempo de Alberti, tenham incluído uma visão orientada para o sentido social do termo, com a necessidade se servir a sociedade, por si só, a arquitetura encontra-se destituída de voz e revela-se ineficiente perante uma tragédia como o 11 de setembro.
Na realidade atual, é de caráter fundamental examinar a arquitetura refletindo sobre conceitos humanistas e heróico, social e individual. Desde o século XVIII, tem sido de sua responsabilidade relacionar-se, concretizar e reformar a sociedade; esse desejo tem sido transformado no campo da utopia e da realidade, sofrendo diversas derrotas. Acredita-se que nunca houve um momento tão propício para revisitar a questões de responsabilidades sociais referente à arquitetura; esta posição justifica-se pelo fato de que, pela primeira vez, a arquitetura surge como fenômeno da mídia e que ao longo da última década foi utilizada de modo justificável, sendo um instrumento de revitalização do interesse por instituições públicas e assim, pela primeira vez, a arquitetura tem uma projeção correspondente aos seus conteúdos.
A arquitetura caracterizou-se como “segundo plano” em muitos momentos da cultura moderna, permanecendo inserida em um estado de abstração, com a pretensão de alcançar um lugar nos debates referentes às formas culturais para valores da sociedade. Semelhantes momentos característicos em períodos de guerra e destruição: a arquitetura enquanto sinal de permanência transforma-se no sinal da transitoriedade das suas ruínas. Ao longo dessas épocas, os debates sobre a arquitetura evitaram uma visão demasiado especializada do mundo e entraram na arena pública, parecendo menos preocupada com as nuances da estética ou da tecnologia. Desde o acontecimento de 11 de setembro de 2001, os momentos de evidência do arquitetônico-cultural têm sido destorcidos pelos atos de terrorismo, que vem provocando a ruptura ou a condensação entre si. Estes atos complicam-se na medida em que o local do World Trade Center, representava para muitos os resultados desafiadores de uma luta já antiga sobre o simbólico e o funcional. Edifícios que se transformaram, durante a destruição, em ícones de um discurso a três tempos: na arquitetura, o da necessidade de uma afirmação de valores contínuos da modernidade e das suas formas: na política, o da necessidade de reconstruir perante a derrota e a ameaça; e o mais árduo, em memoriam, a necessidade de ver o local como memorial de milhares de vítimas do ataque, como local de reflexão. 
Para Anthony Vidler, um dos maiores problemas resultado do desastre do World Trade Center e que a arquitetura pode buscar soluções, é a apropriação do contexto urbano enquanto lugar central para trabalhar e viver e que sejam criadas novas iniciativas, que promovessem a colaboração entre escolas e profissionais no intuito de redefinir a esfera pública.
No novo espaço público do século XXI, novo e criador, a proposta do projeto de reconstrução do local do World Trade Center, deveria propor um local de aspirações, suficiente capaz de responder à tripla questão evocada pelo lugar: resposta heróica a uma agressão da mesma natureza da guerra; resposta arquitetônica aos edifícios destruídos; resposta urbana face às necessidades emergentes; e, sobrepondo-se a todas estas, resposta a necessidade de construção de um memorial e de memória.
Mas para isso, os arquitetos necessitam aceitar o desafio que se aproxima da dimensão de um New Deal para o domínio público da arquitetura. Tal desafio deverá ser definido nas escolas de arquitetura, e será finalidade de nosso trabalho.

Artigo de Anthony Vidler - site Vitruvius
(Por Larissa Pereira Fraga)

domingo, 27 de novembro de 2011

Projetos que buscam resgatar a dignidade dos moradores de rua

Enquanto grande parte da população age com indiferença em relação aos moradores de rua, há grupos que buscam resgatar a dignidade dessas pessoas, desenvolvendo projetos de auxilio, porém cada projeto tem objetivos específicos.

Alguns projetos tem como objetivo oferecer integração social e profissional a pessoas em situação de rua, através de oficinas de artesanato e exposição de peças, como o projeto Ruarte, desenvolvido pela rede de estacionamentos Estapar em parceria com o Fórum das Organizações que Trabalham com a População de Rua. O projeto promove exposições e comercialização dos materiais produzidos por moradores de rua, buscando locais e parceiros que apóiem a iniciativa. O trabalho desenvolvido nas oficinas ensina o morador de rua a transformar o que é tratado como lixo, em artesanato. Segundo a responsável pelo setor social da Estapar "o contato gerado a partir da venda do artesanato ajuda o morador de rua a se socializar pois, na rua, é difícil haver algum vínculo. Além disso, gera um forte impacto dentro das organizações que promovem o Ruarte, o que ajuda a fortalecê-la também", além disso, outro fator contribuinte para socialização do morador de rua, segundo ela "é que ele vê o valor do que produz e sabe que, o que aprende e faz, tem resultado e retorno financeiro, o que o faz se sentir de novo parte da sociedade".

Há também projetos que buscam alfabetizar esses moradores de rua, como o desenvolvido no município de Curitiba, por iniciativa da Fundação de Ação Social (FAS) em parceria com a Secretaria Municipal de Educação. Porém, mesmo havendo uma proposta pedagógica de ensino que desde o início já sofreu várias alterações para atender as necessidades específicas desse público, ainda não está suficientemente adaptada. Além disso, a abrangência e a duração do curso são bastante limitadas, longe de resolver os problemas das pessoas que vivem nessa situação.

Outros projetos buscam amparar, esses moradores, como o Centro de Referência da População de Rua de Belo Horizonte que realiza um trabalho que pretende restituir a dignidade dessas pessoas, garantindo direitos e assegurando a cidadania dos freqüentadores do espaço, aberto à população de rua para lavar roupas, tomar banho, guardar pertences pessoais, ter acesso à internet, cineclube e biblioteca, além de oferecer oficinas de Cultura Popular e Mosaico.

Mas ainda assim, em meio a esses projetos desenvolvidos, muitos tentando, inclusive resgatar essas pessoas das ruas, muitos ainda optam por permanecerem na rua, pois fizeram dela seu espaço para habitar.

(Por Camila Dayanne Lira)

Banalização da questão das pessoas em situação de rua

A miséria que as pessoas em situação de rua representam, é incômodo para a sociedade em geral, como já discutido na postagem sobre “Pessoas Paisagem e Invisibilidade Pública”, porém está constantemente presente na realidade atual, principalmente das grandes cidades. Atualmente quando algo se torna comum, corriqueiro, acaba sendo banalizado, mesmo temas tão sérias como a questão social dos moradores de rua.
Essa situação de banalização pode ser exemplificada por uma cena do filme “À primeira vista“ em que um cego volta à enxergar e ao andar pelas ruas com a namorada, quando vê um morador de rua, pergunta a ela o que é, e ela responde que não é nada.
Essa banalização gera a indiferença discutida na postagem sobre “Pessoas Paisagem e Invisibilidade Pública”. É fato que a indiferença e a insensibilidade estão diretamente ligados, de maneira que, essa insensibilidade tem sido agente de crueldades que têm ocorrido contra moradores de rua, como relata a reportagem “Violência faz parte do cotidiano de moradores de rua”, do Jornal Diário do Grande ABC:

“Na madrugada do dia 11 de maio, cinco moradores de rua foram assassinados enquanto dormiam no bairro do Jaçanã, região norte de São Paulo.[..] O caso emblemático chama a atenção para a violência contra a população que vive nas ruas[..]. Apesar da chacina ser um fato isolado nas estatísticas, atos como agressões, maus-tratos e intimidações são rotina na vida dos moradores de rua da cidade.” 

Além da violência, esses moradores de rua, estigmatizados por grande parte da população, sofrem também com a rejeição. Inclusive, ao buscarem meios de sobrevivência, crianças e adultos vão para os semáforos, fazer malabarismos e acrobacias, vender balas, limpar pára-brisas de carros ou apenas pedir ajuda de qualquer tipo, porém muitas pessoas nos carros ficam aguardando apressadamente a abertura dos semáforos para se livrarem da situação, as vezes com receio de que sejam assaltados (modo de pensar que vem da estigmatização desses moradores de rua), ou até mesmo, com uma indiferença total, como se o fato não lhes dissesse respeito.


Diante disso, podemos perceber a intensa relação que se dá entre pobreza, exclusão, desigualdade e população em situação de rua.

(Por Camila Dayanne Lira)

“Homens Invisíveis”

Diante da situação de renegação das pessoas em situação de rua por parte da sociedade, Thiago Lobato escreveu o texto abaixo, criando uma narrativa onde expressa o drama desses moradores de rua que sofrem com a invisibilidade e a própria falta de identidade.O texto complementa, exemplificando, o assunto discutido na postagem sobre "Pessoas Paisagem e Invisibilidade Pública".

"O seu olhar vagava distraído pela rua enquanto mastigava com seus poucos dentes restantes um pedaço de pão velho, talvez o único alimento do dia. Chegara a um ponto em que não sabia mais da sua própria história, quem era, de onde tinha vindo, se tinha família. Estranhamente o passado havia se tornado tão incerto quanto o futuro e tanto um quanto outro, não eram alvo de qualquer interesse. Sentado na calçada de uma rua qualquer em uma cidade qualquer, via o tempo passar cada vez mais devagar. Desejava que fosse o contrário, queria chegar ao fim de uma vez, queria poder pular as páginas direto para o final da vida que, sabia, seria triste e solitário. Efetivamente não existia, não era ninguém, não tinha sequer nome. Possuía apenas uma roupa esfarrapada e um sapato velho que achara no lixo. Apesar da razão estar abalada, conseguia pensar o suficiente para sentir, e sentia raiva de Deus, da vida, sentia raiva por ter tido tal destino. Um desperdício é o que fora sua existência. Anos jogados ao léu, era como se não tivesse nunca vivido, mas sim apenas existido em um mundo que o ignorava. Estava ali sozinho, perambulando pelas ruas de um lugar qualquer, sem rumo, sem destino, sem vida. Já não sentia dor física apesar de ser velho, nem mesmo quando era surrado por outros como ele, seus semelhantes só que mais jovens, durante a disputa por um pouco de comida do lixo, ou um lugar sob a marquise de algum prédio durante a madrugada. Via as pessoas passando, aquelas pessoas comuns, que tinham uma vida, uma casa, uma família talvez, aquelas pessoas que nem que tivesse sido por uma fração de momento, tinham sorrido, tinham sentido algo além daquele vazio, daquela raiva e daquele eterno não-ser. Sentia medo, medo que o tempo demorasse mais a passar prolongando o seu sofrimento. Aquele sentimento de injustiça e aquela permanente dúvida de porquê ele, porquê ele e não outros, tinha começado e acabado assim, um nada, só era amenizada quando conseguia, por sorte, juntar moedas o bastante para comprar um pouco de pinga. O álcool lhe amortecia a dor e lhe aquecia o corpo durante as intermináveis noites. Não se abalava mais em viver entre a sujeira, entre os animais, em fazer suas necessidades no chão e limpar-se com as mesmas mãos que comia, sempre fora assim desde que sua falha memória conseguia lembrar. Não conseguia se lembrar desde quando usava os mesmos trajes. Se é que se podia chamar aquilo de trajes, um amontoado de panos furados de tão velhos e tão sujos que emanavam um odor horrível a todo tempo, assim como o seu corpo. Gostaria de um banho, quem sabe. Não sabia os dias, não sabia as horas, não sabia o ano, não sabia nada, assim como era, ou melhor, não era coisa alguma. Não tinha amigo nenhum, nunca tivera. Tinha apenas companheiros de não-existência, outros que, como ele, tinham como única razão de abrir os olhos a cada manhã, estarem um dia mais próximos do fim.
Naquele dia amanheceu defunto, em paz. Encostado na porta da Prefeitura da cidade, causou repulsa a um dos funcionários que lá trabalhavam, que ao chegar e vê-lo ali jogado, perguntou para outro que o acompanhava se ele achava que o sujeito estava morto, no que o outro respondeu que não, pois só podia morrer que algum dia tinha estado vivo.". Thiago Lobato


(Por Camila Dayanne Lira) 

Pessoas Paisagem e Invisibilidade Pública

Ao procurar no dicionário o significado para “paisagem”, encontramos:

Paisagem: s.f. Extensão de território que se abrange num lance de vista; panorama, vista. (www.priberam.pt/dlpo)

Dessa maneira, é fato que os moradores de rua são parte integrante da paisagem urbana, a partir do momento que estão presentes nesse território de que fala a definição da palavra, e constituem uma realidade social, que na maioria das vezes é ignorada e renegada. Desse contexto surge o conceito “pessoas paisagem”, que expressa essa condição de indiferença a essas pessoas que tem a rua como seu único lar, e está diretamente ligado com a questão de “invisibilidade pública”, que seria o desaparecimento de um homem no meio de outros homens.


Essa indiferença de grande parte da sociedade em relação à essas pessoas em situação de rua está ligada a uma espécie de cegueira psicossocial, que leva a simplesmente suprimir pessoas do campo de visão, gerada pelo preconceito em relação à essa população que não possui um abrigo formal. Essa questão pode ser melhor entendida na fala do pesquisador Fernando Braga: “todo o mundo se sente invisível em algum momento da vida - numa festa de gente de outra tribo, no emprego novo em que não se conhece ninguém. Mas essas são outras invisibilidades, circunstanciais, e portanto passageiras, reversíveis. Mas a questão que estamos discutindo é sobre uma invisibilidade tão automatizada na sociedade que muitas vezes nem mesmo o ser invisível se dá conta de sua degradante situação. Se ele percebe, carece de armas para o combate. Depois de ser ignorado a vida inteira ou, no máximo, maltratado, ninguém anda de cabeça erguida.”.

Esses moradores de rua são constantemente estigmatizados por grande parte da sociedade. Segundo Márcia Accorsi Pereira: “Ao contrário dos moradores das favelas, que se encontram segregadas em seus territórios específicos, a população em situação de rua vive em espaços de uso dos segmentos médios e das elites da população, ocupando viadutos, por onde transitam os veículos particulares e coletivos, marquises de bancos e lojas, bairros residenciais, entre outros. Assim, a população se vê na contingência de conviver com essa face extremada de miséria. Isso causa diversos sentimentos, que vão desde a caridade até um desconforto contido ou incontido. Há sempre um incômodo.”. Dessa maneira, toda a sociedade é atingida por essa realidade social, de uma maneira ou de outra, porém parte da população utiliza da indiferença como meio de fuga, tratando essa situação como um pano de fundo que na maioria das vezes, inclusive, ignoram.

video

(Por Camila Dayanne Lira)

HABITAR

Heidegger diz: “Parece que só se pode habitar o que se constrói. Este, o construir, tem aquele, o habitar, como meta. Mas nem todas as construções são habitações. Uma ponte, um hangar, um estádio, uma usina elétrica são construções e não habitações; A estação ferroviária a auto-estrada, a represa, o mercado são construções e não habitações. Essas várias construções estão, porém, no âmbito de nosso habitar, um âmbito que ultrapassa essas construções sem limitar-se a uma habitação. (…) Habitar seria, em todo caso, o fim que se impõe a todo construir. (…) Construir é propriamente habitar. ”
Podemos dizer que entendemos “habitar” como nossas casas, formadas por teto, parede, piso, mas ao analisarmos veremos que o “habitar” é muito mais complexo que simplesmente uma construção.
Uns exemplos são os ciganos, moradores de rua, que não possuem um lugar fixo como habitação, mas nos lugares em que escolhem para “habitar” acarreta semelhanças aos usuários, lembranças, sentimentos, que esses sim criam a habitação destes, como aqueles também que possuem teto parede, piso, cada um transmitem ao seu espaço suas identidades, suas marcas, digitais. Isso sim podemos dizer que é o “habitar”, é encontrar essa digital do usuário em um espaço.
E ao deixarmos essa digital no lugar, criamos varias habitações por onde passamos, com isso podemos afirmar que uma casa sem indivíduos morando, existe nela uma habitação, não presencial, mas na lembrança das pessoas que já usaram aquele espaço para depositar suas digitais, identidade.
Então, habitamos o construído, mas principalmente criamos habitações por onde passamos.
Jocasta Mazocco

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Vivendo na rua


Todos que moram em grandes cidades já passaram por lugares com grande concentração de moradores de rua. Isso porque os moradores de rua procuram lugares com grandes aglomerações para terem mais chances de conseguirem alimentos e condições de sobrevivência.
Durante o dia, os moradores de rua arrumam uma forma de conseguirem dinheiro: bicos em obras, diaristas, flanelinhas ou mesmo pedindo a pessoas que passam nas calçadas dos grandes centros.
O morador de rua busca a aproximação com o que imagina ser um lar. Buscam a privacidade e a isolação térmica com o uso do papelão, usam materiais descartáveis como utensílios domésticos, como pote de manteiga como prato, pedaço de madeira como colher, lata de tinta como panela. Além disso, a presença de fogo é uma "elevação de status" na sociedade que formam.
Em Vitória, há algum tempo, uma moradora de rua "construiu uma casa" na calçada do Porto. Conseguiu sofá, papelão, "utensílios domésticos" e colchão. A moradora de rua fazia todas as suas necessidades naquele local, todas mesmo, até fisiológicas.
A presença daquela moradora ali acabou chamando a atenção de quem passava o que trouxe o interesse da mídia, mas quantos moradores de rua existem em Vitória? Quantos existem no ES? e Quantos existem no Brasil? O que a gente faz? O governo? Qual a interferência dessa presença constante na cidade?
São poucas pessoas que interagem com moradores de rua, que param e mostram que notam, que estão ali para saber sobre ele e o que ele precisa, como ajudar? Muitos olham e fingem que não estão vendo (eu já fiz isso), outros mostram que viram e mostram que não gostam, que se sentem coagidos...
Como a arquitetura e o urbanismo interferem na localização dessas pessoas?
Em Vitória, durante a semana a população de rua fica dispersa no Centro de Vitória, mas é possível encontrá-los na Praça Costa Pereira, na Praça Getúlio Vargas, na Escadaria do Palácio, na Cidade Alta e perto do Porto.
Durante os domingos e feriados, quando o comércio está fechado, a maioria vai para o sambão do povo ou para perto da rodoviária onde tem muitas árvores aglomeradas e ali ficam em grupo, causando medo e repúdio aos outros usuários que passam no local.
A presença dessa "população paralela" que vive de forma sub-humana, acaba por misturar o público com o privado. O que para quem tem uma casa, é impensável fazer no meio da rua, para o morador de rua é corriqueiro. Dormem, comem, bebem, tem relações sexuais, fazem coco e xixi tudo no meio da rua, tomam banho em espelhos d'água e beiras de maré...
Como relacionar o que é público e o que é privado nesse caso? Mesmo morando na rua e sendo tão público, o morador de rua busca essa relação com o aspecto citado acima, usando papelões e outros materiais em busca de privacidade.
Enfim, o morador de rua vive com criatividade, buscando o possível para se manter... e confunde as nossas idéias... o que é público e privando então?


(por Jaqueline Torquatro)

Vivendo na rua

Todos que moram em grandes cidades já passaram por lugares com grande concentração de moradores de rua. Isso porque os moradores de rua procuram lugares com grandes aglomerações para terem mais chances de conseguirem alimentos e condições de sobrevivência.
Durante o dia, os moradores de rua arrumam uma forma de conseguirem dinheiro: bicos em obras, diaristas, flanelinhas ou mesmo pedindo a pessoas que passam nas calçadas dos grandes centros.
O morador de rua busca a aproximação com o que imagina ser um lar. Buscam a privacidade e a isolação térmica com o uso do papelão, usam materiais descartáveis como utensílios domésticos, como pote de manteiga como prato, pedaço de madeira como colher, lata de tinta como panela. Além disso, a presença de fogo é uma "elevação de status" na sociedade que formam.
Em Vitória, há algum tempo, uma moradora de rua "construiu uma casa" na calçada do Porto. Conseguiu sofá, papelão, "utensílios domésticos" e colchão. A moradora de rua fazia todas as suas necessidades naquele local, todas mesmo, até fisiológicas.
A presença daquela moradora ali acabou chamando a atenção de quem passava o que trouxe o interesse da mídia, mas quantos moradores de rua existem em Vitória? Quantos existem no ES? e Quantos existem no Brasil? O que a gente faz? O governo? Qual a interferência dessa presença constante na cidade?
São poucas pessoas que interagem com moradores de rua, que param e mostram que notam, que estão ali para saber sobre ele e o que ele precisa, como ajudar? Muitos olham e fingem que não estão vendo (eu já fiz isso), outros mostram que viram e mostram que não gostam, que se sentem coagidos...
Como a arquitetura e o urbanismo interferem na localização dessas pessoas?
Em Vitória, durante a semana a população de rua fica dispersa no Centro de Vitória, mas é possível encontrá-los na Praça Costa Pereira, na Praça Getúlio Vargas, na Escadaria do Palácio, na Cidade Alta e perto do Porto.
Durante os domingos e feriados, quando o comércio está fechado, a maioria vai para o sambão do povo ou para perto da rodoviária onde tem muitas árvores aglomeradas e ali ficam em grupo, causando medo e repúdio aos outros usuários que passam no local.
A presença dessa "população paralela" que vive de forma sub-humana, acaba por misturar o público com o privado. O que para quem tem uma casa, é impensável fazer no meio da rua, para o morador de rua é corriqueiro. Dormem, comem, bebem, tem relações sexuais, fazem coco e xixi tudo no meio da rua, tomam banho em espelhos d'água e beiras de maré...
Como relacionar o que é público e o que é privado nesse caso? Mesmo morando na rua e sendo tão público, o morador de rua busca essa relação com o aspecto citado acima, usando papelões e outros materiais em busca de privacidade.
Enfim, o morador de rua vive com criatividade, buscando o possível para se manter... e confunde as nossas idéias... o que é público e privando então?


(por Jaqueline Torquatro)

Quem são os moradores de rua?


Moradores de rua são crianças, jovens, adultos, idosos que sofreram uma perda de alguma forma.
Perderam família...emprego... identidade... coisas que muitos nunca tiveram (perderam a chance de ter)...
A maioria é formada por homens que vieram de outros locais em busca de melhoria de vida. A maior parte trabalha em construção civil e com o fim do contrato acaba ficando sem ter onde morar e sem condição de voltar para o seu local de origem.
Muitos desses indivíduos...mendigos...cidadãos, tinham contato com a família. Os que são mais novos de rua, tem mais lembranças de sua origem, mas com o passar do tempo acabam perdendo essas referências e se tornando um ser solitário...
Com isso, surge a necessidade de formar novos grupos, que tem como integrantes parceiros parecidos, que tenham algo a oferecer, principalmente bebidas...
Mesmo na rua, essas pessoas não perdem algumas referências, como o sentido da troca. No livro Cidade de Papelão, o autor cita um catador, que ao ir ao bar pedir algo para beber dá ao dono do estabelecimento uma lantejoula que achou na rua.
Enfim, como diz na música Edvaldo Silva, já postada aqui no blog... Eu digo moradores de rua, mendigos ou não, são seres humanos, cidadãos com direitos (esquecidos) que acabam fazendo parte da paisagem da cidade (que ninguém quer ver), são feitos de pó como qualquer um e no fim vai pro mesmo lugar que todo mundo.... E pra você?

(por Jaqueline Torquatro)

Edvaldo Silva - ao cubo


Lá no fundo sombrio de um bar cheio de mosca, camisa quadriculada por fora da calça larga e frouxa. Barba melada de leite que escorria pela boca, e a baba de outros dias marcada na roupa...
Segurava meio trêmulo sua caneca de cabo cinza, caminhando lentamente com destino a saída
Começa mais um dia ou só mais um que se elimina, pelo homem com o nome Edvaldo Silva.
Não sabe ao significado do afeto e amor, não conhece a pólen as pétala rosa só o espinho da flor. Lembrança da vida só na infância marcada com trauma e dor, ainda a memória do pai animal sem amor...
Que não tinha profissão e a um tempão fazia mixê , saía com homem e mulher pra ter alguma coisa pra comer. Vendia farinha, maconha, seu corpo pra que quisesse ter, tudo dentro de casa pra família ver...
Foi crescendo Edvaldo Silva trancando num quarto com sua mãe Vilma, com o berço atrás da cortina ouvia tudo que acontecia
Seu pai com outras meninas e sua mãe no meio também lhe servia, a noite inteira, música alta, droga e bebida...
A oito anos o pai trancava o quarto e com a chave saía, em busca de novos clientes que quisessem droga, seu corpo ou da Vilma
O menino entraria no meio ao completar dez anos de vida, muitos clientes procuravam pedofilia...
A muito tempo Dna. Vilma tentava fugir com Edvaldo Silva, sempre soube que aquilo não era futuro pra sua família
Então num lindo Domingo fugiu com o menino e foi pra polícia, desabafou com o delegado que fez perícia...
AH! Seu moço o Sr. Tem que me ajudar. Meu filho Edvaldo vive onde criança não pode estar
Cárcere privado, prostituição e tráfico no lar e se meu marido me ver aqui vai me matar...
O pai do garoto já esperava por isso, então aguardou que a polícia chegasse cedo, colocou retrato da família na parede e pro filho comprou um brinquedo
Deixou a casa um brinco, geladeira cheia e presente no berço, esperou a família no sofá segurando um terço...
Chegado o delegado investigou o caso e ficou naquele quarto durante horas, procurava um objeto certo ou que chegasse perto a ser uma prova
Não encontrou nada na cama, nem na vizinhança que lá era nova, nem se quer uma pista forjada, uma pista idiota...
Dna. Vilma estava insegura, conhecia o marido desde o primeiro beijo, se arrepende de ter colocado o nome do filho assim do mesmo jeito
Tem certeza que sua segurança seria infinita se ele fosse preso, sabia que era frio, imprevisível pra sentar o dedo...
A moça se desiludiu, chorou como um rio entrou em desespero, parecia em estado de choque esperando a morte até falava com o espelho
Gritava bem alto na janela que aquilo era cela e seu filho estava preso, já estava à beira da loucura tudo por medo...
O pai do menino Edvaldo agia na noite não deixava aviso, ele vendo as atitudes da Vilma foi oportunista, certo e preciso
Deu depoimento na polícia e provou que Vilma não tinha juízo, tava com problema de loucura então mandou pro hospício...
Ela até achou melhor assim, não conseguia mais dormir com inimigo do lado mas antes de ser internada, pegou o filho e mandou pra outro estado
Qualquer cidade bem longe a rua é mais segura do que aquele quarto, não sabia a próxima vez que o veria mas tava assinado...
Essa é a única lembrança que tem na memória do homem Edvaldo, se passaram vinte e sete anos da última vez que esteve em São Paulo
Hoje em dia vive numa guia pedindo comida e sendo envergonhado, agora é só mais um mendigo condenado...
Sem pressa toma leite e guarda a caneca de cabo cinza, põe dentro da sacola onde leva o cobertor e três mexericas
Nunca pediu pra vir pro mundo, mas já que tá fica e assim se passam os anos de Edvaldo Silva...
Na sacola encontra um papel que guardou quando estava no bar cheio de mosca, lembra desse folheto quando recebeu da mão de uma moça
Com folheto se emociona ao ver pessoas de mãos dadas sorrindo a toa, se tivesse um amigo a vida seria boa...
Edvaldo fica imaginando quem era a moça e porque se importaria em levar um folheto a um mendigo sujo e fedido que vive numa guia
Pensou que pudesse ser engano, mas se enganar com um sujeito que fede a carniça, Edvaldo guardou o folheto e seguiu sua trilha...
Diariamente escala o escadão até o último degrau como se fosse um trabalho, senta e descansa a sacola, abre a camisa e tira o sapato
Do alto olha o asfalto e toda correria das pessoas nos carros, assim o dia passa mais rápido é como um atalho...
Fica lá de cima contando o sino da estação soar várias vezes, trem chegando, partindo, as mesmas pessoas passam como fregueses
Chega a ser quase invisível se não fosse o desprezo de muitos deles, Edvaldo chora por dentro o choro de meses...
Quem são esses seres que me olham bem no olho, disfarçam que não me viram pra não enxugarem meu choro
Eu sou a paisagem pior que é um tapa no rosto, acredite ser humano é esse corpo...
Tenho vergonha da minha miséria, que tortura que é a fome, ela se alimenta de pele escura e de pele amarela mas pele de pobre
Como um golpe forte, três pontas de chicote, que invade a carne com um corte...
Os que passam e me chutam, provavelmente são criados na sela, como animais de um condomínio que a janela
tem grades pra se protegerem da favela, estou ferido, tem valentão que me taca pedra...
uns tem muita grana, esses são chamados de rico, outros dormem na lama e esses são confundidos com lixo,
ser humano é isso, acredite não é bicho, no fim apodrece com ou sem distintivo...


( por Jaqueline Torquatro )

Ó Buda...


Segundo Paulo Coelho “uma escritura budista discorre sobre as seis dificuldades de se viver numa casa: dá trabalho construí-la, dá mais trabalho ainda pagá-la, deve ser consertada sempre, pode ser confiscada pelo governo, vive recebendo visitas e hóspedes indesejados, serve de esconderijo para atos condenáveis. Por outro lado, há seis vantagens de morar sob uma ponte: pode ser encontrada facilmente, o rio nos mostra como a vida é passageira, não nos dá a sensação de cobiça, não precisa de cerca, sempre passa alguém novo para conversar, não é preciso pagar aluguel.”

       Bela filosofia. Mas seria tão simples assim??

Sob a ponte do Rio Atibaia, em Paulínia, “residência com quarto, cozinha e banheiro” é vigiada pelo cachorro. (Fonte imagem: Jornal TodoDia)


(Por Tatiana Alpohim Guerra)

Projeto quer transformar antiga ponte em condomínio



Escritório de arquitetura canadense propõe reaproveitar uma antiga ponte italiana, que está desativada, para construir um condomínio vertical com tecnologias verdes.

            Para encurtar a distância percorrida entre Scilla e Bagnara, o governo da Calábria, região sul da Itália, decidiu construir uma nova estrada mais moderna e menos sinuosa. Por causa disso, foi obrigado a desativar uma das mais tradicionais autopistas do país, conhecida como Estrada do Sol. Como forma de reaproveitar a velha estrutura suspensa já construída, o governo organizou um concurso para selecionar projetos de reocupação da edificação. Entre propostas de parques ao ar livre e uma pista para prática de esportes, a que mais chamou atenção foi um condomínio vertical construído "de cima pra baixo", sugerida pelo escritório de arquitetura canadense Ja StudioInc. 
            Usando a própria ponte como armação, os arquitetos pensaram como aproveitar a paisagem ao redor para integrar os moradores ao meio ambiente. A ideia foi reutilizar a estrada como acesso e criar rampas secundárias para levar os moradores até suas casas, construídas com tecnologias verdes (como materiais reciclados, placas solares etc.). Tudo para conectar as vilas de casas e propor uma proximidade entre os moradores. O projeto não foi para a etapa final do concurso, mas mostra como pode ser interessante morar debaixo da ponte. 



(Por Tatiana Alpohim Guerra)

Estética da ginga




A arquitetura das favelas através da obra de Hélio Oiticica

            O ponto de partida para a obra de Paola Berenstein Jacques coincide com o início de seu curso de arquitetura e urbanismo na UFRJ, localizada na Ilha de Fundão. Para chegar ao seu prédio, Paola passava diariamente por parte da Favela da Maré. Seu percurso e seu ponto de chegava eram completamente contraditórios. Enquanto um era espontaneamente original, o outro, moderno, era racionalmente rígido.
Complexo da Maré, no Rio de Janeiro. (Fonte imagem: http://crimesnews.wordpress.com)
            Outro encontro aconteceu bem longe do palco deste primeiro. Foi em Paris, numa exposição retrospectiva itinerante da obra do artista Hélio Oiticica que Paola se sentiu acolhida. “A identificação com o espaço proposto por Hélio Oiticica foi imediato.”
            É desse confronto cotidiano e dessa outra experiência que surge o livro. “Este livro nasceu, portanto, da indignação provocada por dois encontros: o primeiro, com as favelas do Rio e o segundo, com a obra de Hélio Oiticica.”
            Oiticica representava o Rio, sua experiência na cidade e, sobretudo, sua experiência nas favelas do Rio. “Resumindo: foi em Paris, e por meio da obra de Hélio Oiticica, que eu compreendi, de um lado, que a cultura carioca está inextricavelmente ligada às favelas, e, de outro, que existe uma estética própria às favelas, o que constitui uma alteridade urbana e merecia ser estudado mais de perto.”
            Seguindo, a autora ressalta a contradição em escrever sobre arquitetura e sobre as favelas, que, constituída por não-arquitetos, são arquitetura. Vale dizer também que a estética das favelas, a estética própria das favelas, que será o guia. A estética como disciplina sempre foi um caminho paralelo e alternativo ao racionalismo.
            Paola alerta ainda a diferença entre a arquitetura dos arquitetos, com intenção estética explícita, e a arquitetura vernácula, construída pelos favelados. Estes têm um único objetivo: o abrigo. Aqui as favelas são consideradas reservas de arte, um potencial artístico visível apenas por intermédio de um artista. E é esta a ligação com a obra de Oiticica, que representou esteticamente sua experiência na favela.
            A nova questão das favelas também é avaliada. Antes, a discussão era ao redor da remoção ou recolocação dos moradores para distantes áreas das cidades. Agora o direito à urbanização é reconhecido e se discute a boa integração entre a favela e o restante da cidade. Ou seriam estes já parte um do outro? Será mesmo necessário que o primeiro se molda às vestes do segundo para então serem considerados integrados?
            Numa tentativa de dissecar essa estética das favelas, Paola desenvolve três figuras conceituais: o fragmento, o labirinto e o rizoma. E faz a constatação de que “os barracos das favelas são compostos de fragmentos; a aglomeração de barracos forma labirintos; estes, por sua vez, se desenvolvem pela cidade como rizomas.” Em cada figura repete-se o procedimento: percepções da realidade, interpretações artísticas das obras de Oiticica na Mangueira e compreensão sistemática pautada em noções teóricas e abstratas.
            No exemplo do fragmento vê-se como a própria construção dos abrigos é feita dessa forma, por partes. E é um processo contínuo, onde os fragmentos achados e montados são sempre substituídos por outros, também achados nos resíduos da, dita, cidade formal. Espontaneamente e sem projeto, portanto sem objeto final, os moradores vão construindo suas casas, formalmente fragmentadas e se aproximando da idéia de bricolagem, trabalho com as mãos e utilizando meios desviantes em relação aos empregados pelo homem de artes. Isso, claro, sem perder de vista o simples motivo de abrigar.
            Oiticica também discute essa questão do abrigo na obra Parangolés, desenvolvida durante sua (auto) descoberta na comunidade da Mangueira, experiência esta rica e lembrança de dias muito felizes. “Os Parangolés são capas, tendas e estandartes, mas, sobretudo capas, que vão incorporar literalmente as três influências da favela que Oiticica acabava de descobrir: a influência do samba (...), a influência da idéia de coletividade anônima (...) e a influência da arquitetura das favelas, que pode ser resumida na própria idéia de abrigar, uma vez que os Parangolés abrigam efetivamente (...)”
             A autora segue fazendo essas ligações e essas análises, descobrindo e explicando os valores das favelas, dessa arquitetura dos não-arquitetos, dessa vida já intrínseca à cidade, mas que é preciso ter ginga para poder reconhecer.
Nildo da Mangueira, com Parangolé, 1964. (Fonte imagem: http://www.digestivocultural.com)
(Por Tatiana Alpohim Guerra)

terça-feira, 22 de novembro de 2011

(in)FORMAL(idade)

Informalidade: substantivo feminino. Ausência de formalidade.

Formalidade: substantivo feminino. Regra imposta pela civilidade.

Informal: adjetivo. Desprovido de formalidades.

Formal: adjetivo. Concernente à forma, por oposição ao conteúdo. Formulado com precisão.

Fonte: dicio.com.br

As simples definições do dicionário fazem refletir sobre a sociedade (de hoje e/ou de sempre? Acredito que a própria configuração de uma sociedade leve a isto):

A sociedade contempla paradigmas sobre a forma de se viver.

Existe um paradigma (formalidade) sobre como se deve morar.

A informalidade, ausência dessa formalidade (em todos os quesitos e também na habitação), faz com que a sociedade se atenha à forma e se oponha, repudie, ignore o conteúdo.

Um informal na socidade está sempre encoberto por sua informalidade.

(por Lais)