segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Vida Cigana






Caracterizar o povo cigano é tão complexo quanto descobrir sua origem. Moradores do mundo que assimilam a cultura por onde passam, não apresentam padrão de língua ou religião. Cores, dança e misticismo os identificam  e em nada expressam a trajetória de preconceitos e perseguições que os forçaram a ser nômades.
O nomadismo foi incorporado à cultura e mesmo aqueles que hoje são sedentários fazem uso da moradia itinerante para transmitir valores e manter viva a identidade cigana na família.
Atualmente encontram dificuldade quanto à implantação dos acampamentos. As prefeituras não permitem o assentamento nos terrenos vagos ou cobram altos aluguéis por eles, embora haja muita discussão quanto aos direitos da raça e preservação da cultura são privados da plenitude de seu estilo de vida e são feitas expulsões de acampamentos ou promovidas perseguições gratuitas.
A lona amarela e tecido colorido compõem a estrutura de sua moradia, alguns possuem integrados automóveis que reforçam o caráter da migração. As cores vibrantes camuflam a dificuldade de se viver nestas barracas, onde são expostos a intempéries, falta de infraestrutura e dificuldade de organização.

“Quem pensa que cigano nômade vive cantando se engana, porque desconhece como se vive debaixo das lonas coloridas das barracas, nas periferias de grandes cidades, em terrenos baldios, sujos, sem luz nem água, conseguidos mediante pagamento adiantado, ou na beira de estradas movimentadas e barulhentas. E o que é pior, sem direitos civis, que deveriam ser uma condição de todos brasileiros. E, esta situação parece não ter fim, passe o tempo que passar, mudem-se as paisagens, transforma-se os costumes, reformam-se as leis.”
(Desabafo de Cezarina Macedo site: www.janella.com.br)

Apesar dos obstáculos fazem questão de viver em acampamentos, não priorizam a aquisição de imóveis, mas valorizam sua identidade e liberdade como nômades.

Fotos:Paulo Pepe

Letícia Oliveira

Unidos pela lona preta

O MST(Movimento dos Trabalhadores rurais Sem Terra) normalmente é associado a um cenário de violência gerado por suas invasões a fazendas improdutivas.Com acampamentos objetivam a desapropriação da terra,afim de assentar famílias que lutam pela reforma agrária. Reúne pessoas de costumes diferentes que com o objetivo de conquistar terras levam uma vida comunitária com superação de conflitos internos provocados por visões e hábitos diferenciados.

“(...)Foi em 99,mês de abril,aí o pessoal já me ajudou,ajuntou uma turma lá ai já foi ajudar cortar madeira,fincar o barraco tal e naquele dia mesmo eu já tava com o barraquinho pronto,né? O pessoal lá do acampamento ajudou,ajudou buscar bambus,não!Não!eu achei muito bom,né?A união,as pessoas emprestaram as ferramentas para fazer os barracos,o pessoal ajudando,ajudou a cobrir,né?Fizemos os barraquinhos(...)”
(Jonas Batista Nunes sobre a ocupação da fazenda São Domingos, Urbelândia,MG)

O acampamento é formado por uma população que vem de situações precárias de vida e se submetem a uma nova situação precária com a substituição de um sonho individual por uma luta coletiva. Embora muitas das vezes sejam (re)tratados como oportunistas é improvável que alguém se submeteria ao que eles se submetem se não fosse a real necessidade.





“(...) E a gente vem, as barracas da gente é feita de é muito fraquinha, né?É feita de lona, né?De madeira mesmo, aquelas madeiras fracas.Também,às vezes,quando vem um vento,venta muito,quando venta muito assim,derruba aqueles barrracos pra lá,né? Cai,rasga a lona e também não tem piso, vira tudo aquele barro, aquela coisa esquisita, num é fácil. Quando ta estiando o sol até que é bom, né? Mas se chover é um problema, fica difícil, mais difícil mesmo, sofre bastante. E outra também que esquenta muito, começa a esquentar assim, o calor demais, a lona esquenta assim, que fica quase derretendo. E daí, ela sei lá!Parece que junta, que fica aquele problema de oxigênio, parece que o oxigênio não anda ali na barraca. E costuma sempre dar problema de saúde, né?(...)inclusive,até que eu fui de muita sorte que num veio a complicar tanto que nem já complicou com alguns companheiros. Teve companheiro que num veio agüentar esse tipo de coisa e vieram a falecer durante a trajetória(...)” (João Moura dos Santos sobre as condições de um acampamento)

“No último dia 27(novembro 2011), dois homens armados entraram no acampamento Vitória atirando na direção da casa do acampado Divino. As informações são da Comissão Pastoral da Terra (CPT) que informou que os dois atirados procuravam por Divino e o seu tio, Noginel. O acampamento fica no município de Palmeirante, Tocantins, às margens da rodovia TO-335, e é formado por 19 famílias.
(...)As famílias já enfrentam problemas com pistoleiros desde o ano passado. Em 19 de dezembro, ocorreram sessões de intimidação com tiros e movimentações noturnas no acampamento. Situações que se repetiram a cada semana nos meses de fevereiro a maio deste ano. Os acampados relatam a presença de veículos em baixa velocidade com passageiros que os agridem verbalmente.”
(www.mst.org.br Por Lia Gonçalves)

Acampar nada mais é do que o caminho entre a falta de perspectiva e o sonho da terra para plantar com uma casa digna para viver.

Entrevistas:SILVÉRIO, Leandra D .Mestrado em História Título: Assentamento Emiliano Zapata: trajetória de lutas de trabalhadores na construção do MST em Uberlândia e Triângulo Mineiro (1990-2005)

Fotos:Sebastião Salgado

Letícia Oliveira

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Favelas - Caracas e Rocinha



Rocinha

Caracas

Em média 6 milhões de pessoas vivem em Caracas, diz-se que mais de 3 milhões vivem em bairro ou favelas. No entanto, a Venezuela é um país onde a gasolina é mais barata que a água.
Como um grupo, as fotografias dos bairros têm a intenção de mostrar o dilema ético que o povo Venezuelano, o governo e toda a comunidade global devem enfrentar se quisermos mudar a face da violência e da pobreza.
O mesmo, Cypriano tentou mostrar quando fotografou a Rocinha no Rio de Janeiro, sendo que esta possui cerca de 70 mil habitantes. Suas fotos  marcam um profundo contraste urbano na paisagem da região, que é frequentemente citado como símbolo da desigualdade social do Brasil.

(FRANCINE PIZETTA LIBARDI)

Quilombolas - A cultura da Resistência!





 Quilombolas é um tema também muito fotografado por André Cypriano. A palavra tem origem na língua Banto e está próxima do significado da palavras tais como: habitação, campo de floresta, guerreiro, e na central da Bacia do Congo, a palavra significa "lugar onde se está com Deus".
Encontrei na letra dessa música um pouco do que as fotos dos Quilombolas de André Cypriano retrata. A dificuldade do povo, a precariedade das habitações e a baixa qualidade de vida são alguns assuntos notáveis nas fotografias:

Manguetown
Chico Science
Tô enfiado na lama
É um bairro sujo
Onde os urubus têm casas
E eu não tenho asas
Mas estou aqui em minha casa
Onde os urubus têm asas
Eu vou pintando, segurando as paredes
No mangue do meu quintal e manguetown

Andando por entre os becos

Andando em coletivos

Ninguém foge ao cheiro sujo

De lama da manguetown (2x)

Esta noite sairei vou beber com meus amigos....ha!

E com as asas que os urubus me deram ao dia

Eu voarei por toda a periferia

Vou sonhando com a mulher

Que talvez eu possa encontrar

e ela também vai andar na lama do meu quintal é

Manguetown

Andando por entre os becos

Andando em coletivos

Ninguém foge ao cheiro sujo

Da lama da maguetown (4x)

Fui no mangue catar lixo

Pegar caranguejo

Conversar com urubu.


(FRANCINE PIZETTA LIBARDI)

André Cypriano


Um nativo do Brasil, André Cypriano nasceu em 1964 e foi educado numa Universidade em São Paulo, conquistando seu diploma em administração de empresas. Preocupado com as questões ambientais, ele contribuiu com tempo e esforço como o administrador de "Salva Mar" Save the Sea - uma organização brasileira dedicada a salvar as baleias no norte do Brasil.

Em 1990, um ano depois de mudar para os EUA, André começou a estudar fotografia em São Francisco. Desde então, ele completou vários projetos que foram expostos em diversas galerias e museus no Brasil, EUA e Europa.

André foi ganhador de vários prêmios e reconhecimento, dentre eles o Mother Jones Fundo Internacional para Fotografia Documental (Setembro 1999), Bolsa Vitae de Artes em São Paulo (Janeiro 2002), Caracas Think Tank (Janeiro 2003), bem como todas as fotografias do Programa Estradas da National Geographic Sociedade (Outubro 2005). 


Como parte de um projeto de longo prazo, Cypriano começou a documentar estilos de vida tradicionais e práticas de sociedades nos cantos mais remotos do mundo, com uma inclinação em direção ao único e incomum. Até agora, ele já fotografou o povo de Nias, uma Ilha ao Largo da Costa noroeste de Sumatra (Nias- Jumping Stones), os cães de Bali (busca espiritual), a penitenciária infame de Cândido Mendes, no Rio de Janeiro (Rocinha-book publicado pelo SENAC Editoras), bem como as favelas mais importantes do Rio de Janeiro e Caracas ( a Cultura das Cidades Informais). Seus projetos têm sido usados em oficinas educativas.

Atualmente, André Cypriano trabalha como fotógrafo freelancer em Nova York e Rio, e continua a estar envolvido em atividades sociais e culturais.

(FRANCINE PIZETTA LIBARDI)

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Formalizando a informalidade - projeto Infosolo



"Com apoio financeiro do Programa de Tecnologia de Habitação (Habitare), da Finep, uma rede de pesquisa formada por oito universidades traçou uma radiografia do mercado de compra, venda e aluguel de imóveis nas favelas brasileiras. O estudo foi realizado em áreas de pobreza nas cidades do Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, Recife, Florianópolis, Salvador, Brasília e Belém. O projeto permitiu o levantamento de dados primários que revelam aspectos como condições das moradias, origem das famílias, renda familiar, inserção no mercado de trabalho, preços médios de compra e de venda, valor dos aluguéis, sistemática de comercialização e locação, fatores de atração e de repulsão na escolha da moradia, entre diversos outros aspectos.
(...)

Resultados
Para os pesquisadores, alguns resultados são inesperados, como o grande crescimento dos aluguéis nas áreas de pobreza. Em Recife, 57,92% das transações nos assentamentos consolidados são de aluguel. Da mesma maneira, em Florianópolis (com índice de aluguéis de 42,20%) e Brasília (39,19%) o mercado de locação é bastante significante em relação ao mercado de comercialização e permite levantar a hipótese de uma tendência de crescimento da locação informal nos territórios populares das áreas metropolitanas destas cidades.

“No Rio de Janeiro predomina a comercialização, mas o aluguel subiu de 15 para 30% em relação a outra pesquisa realizada há alguns anos pelo IPPUR”, informa Abramo (
economista Pedro Abramo, pesquisador do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (IPPUR), ligado à UFRJ). Para ele, o dado chama atenção para a necessidade de que seja retomado o debate sobre a moradia de locação popular.

(...)
 Também revela que muitos moradores de favelas são provenientes de áreas de formalidade e que 60% dos vendedores já passaram pelo mercado informal – há portanto uma recorrência nas transações informais. Além disso, mesmo que tivesse recursos para obter um imóvel no mercado formal, uma grande parcela dos entrevistados optaria por áreas centrais irregulares. “Muitos moradores decidem comprar na favela e não em conjuntos habitacionais e os fatores que explicam essa escolha devem ser conhecidos, pois são determinantes importantes que devem ser levados em conta na implementação de políticas habitacionais públicas”, alerta Pedro Abramo.

Os levantamentos também revelam que os preços praticados no mercado informal são relativamente altos e comprometem boa parte da renda já reduzida das famílias. A pesquisa mostrou ainda que a grande maioria das famílias se concentra na faixa de renda de até dois salários mínimos - 80% recebem menos de três salários mínimos mensais.

O levantamento esclarece como os moradores chegaram aos imóveis nas áreas de favela – e a maioria respondeu que a indicação se deu por meio de parentes e amigos. A pesquisa recuperou também a origem e a trajetória do morador, documentando até cinco mudanças anteriores à moradia no domicílio ocupado no período da pesquisa. Os dados mostram como as relações sociais são fortes determinantes das escolhas."

 Um projeto como esse é extremamente interessante para que possamos entender um pouco mais o processo de ocupação informal de uma área e os desdobramento desse processo, como a locação a preços altos e a migração de pessoas de áreas formais para áreas informais, e também a especulação imobiliária nas áreas informais.
A habitação informal é um produto da sociedade capitalista e parece natural que o sistema imobiliário atingisse também as áreas informais. É notável como as redes pessoais fazem com que pessoas se mudem de áreas formais para áreas informais. 
A meu ver, tudo isso demonstra um processo de formalização da informalidade. Até que ponto?

(por Lais)

Formal e informal - desdobramentos



Os pensamentos a seguir foram inspirados pelo artigo A demonização da habitação informal, de André Gardini.
 
O senso comum utiliza a o termo informal para designar toda habitação que nasceu fora dos parâmetros legais da sociedade. Mais que isso, habitação informal evoca favela. Transmite repulsa.

Do que muitas vezes não lembramos é que existem diversos exemplos de construções de luxo informais, que não respeitam os parâmetros exigidos, às vezes em áreas de preservação ambiental.

Esquecemos também que a habitação informal é um produto da sociedade em que vivemos – está dentro da sociedade, faz parte dela. A especulação e o capital são agentes ativos no desenvolvimento da cidade informal.

Políticas públicas podem formalizar um módulo de ocupação informal, mas o estigma da informalidade continuará ali, até que se decida, na esfera da especulação, que aquele local tem potencial. E é comum que, então, a população “informal” assim continue, se mudando para outro módulo informal.

A construção de luxo informal, nunca vista como tal, ali permanence, até que encontre um trâmite que a leve à formalidade.

(por Lais)

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

A fama dos quase sem nome

"Diz que o mundo ia se acabar, pois o mundo se acabou, a derrota de um circo queimado é um mundo representado, porque o mundo é redondo e o circo arrendondado, por este motivo, então, Gentileza não tenha sossegado." ( modinha criada por Gentileza)


Na tarde de 17 de dezembro de 1961, um funcionário demitido do Gran Circus Norte-Americano, em Niterói, ateou fogo à lona durante um espetáculo. Cerca de 400 pessoas morreram, em sua maioria crianças. Seis dias depois, um empresário de nome José da Trino (ou Datrino) deixou tudo o que tinha, incluindo mulher e filhos, para consolar as vítimas. Mudou-se para o local, onde plantou um jardim com flores. 

Nos 35 anos seguintes, andaria pelas ruas, ônibus e barcas do Rio pregando a bondade. Seu lema: gentileza gera gentileza. Quando criança, amansava animais em Cafelândia, interior de São Paulo. Andarilho na Cidade Maravilhosa, dizia-se "amansador dos burros-homens da cidade que não tinham esclarecimento". 

Nos anos 1980 pintou mensagens em 55 pilastras do Viaduto do Caju, próximo à rodoviária da cidade. Meus filhos, bem vindo ao Rio. Gentileza gera gentileza amor beleza perfeição bondade e riqueza. Em 1997 a companhia de limpeza urbana da cidade jogou uma camada de cal em cima dos escritos. Como cantou Marisa Monte na música Gentileza, que o homenageia, só ficou no muro tristeza e tinta fresca. Dois anos depois, o projeto Rio com Gentileza, sob a coordenação do professor Leonardo Guelman, da Universidade Federal Fluminense, iniciou a restauração das pilastras, que receberam proteção especial de poliuretano para aguentarem as intempéries. 

A túnica branca adotou em viagem a Ouro Preto, por sugestão de estudantes que lá o acolheram. Com o tempo, foi ganhando bordados. Eram quatro. Um deles: Não usem problemas. Não usem pobreza. Usem amor e gentileza. Carregava um estandarte com flores, bandeira do Brasil, catavento e dizeres. Assim justificava: "As flores são porque eu sou o jardim ambulante"; a bandeira, porque "é a mais linda do universo"; e o catavento, "para refrescar a mente da humanidade". 

Durante a Eco-92, colocou-se estrategicamente no caminho dos participantes. Queria que sua mensagem de amor chegasse a outros cantos do planeta. Por vezes foi confundido com mendigo. Quando alguém lhe oferecia esmolas, recusava: "Não quero seu dinheiro. Quero seu espírito para Deus." 

Em 1996, doente, passou seus últimos meses de vida na cidade de Mirandópolis, em São Paulo. Morreu em 29 de maio daquele ano, próximo à família.Em virtude do desgaste sofrido pelas pinturas de Gentileza ao longo do tempo e com seu falecimento, todo este patrimônio acabou sendo encoberto. Em 2000, o projeto "Rio com Gentileza" entregou à população carioca os Escritos Murais do Profeta Gentileza totalmente restaurados. A obra é considerada como uma das maiores expressões de arte mural pública, de caráter espontâneo, que se conhece na cidade.


Fontes: Almanaque Abril 
Projeto de Graduação de Mariella Lima Pimentel - Sem eira nem beira
(Por Larissa Pereira Fraga)

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Escalas e tempos do habitar

Pesquisando sobre “o habitar”, acabei encontrando este texto que achei bem interessante e que retrata as diversas formas de habitar, tanto no coletivo, como semicoletivo e no habitar individual.
(Disponível no site: http://infohabitar.blogspot.com/2011/09/sobre-humanizacao-do-habitar-algumas, acessado em 01 de novembro de 2011.)
“A habitação que está também na rua e está também na praça, e as deve marcar subtilmente, e se não estiver é porque não se está a habitar a cidade e não se estando a habitar a cidade estão a criar-se problemas que, tal como uma doença não tratada, irá piorar e mesmo quando remediada, depois de se ter desenvolvido de forma crítica, deixa, frequentemente, sequelas graves.
O habitar tem de ser cumprido como um verdadeiro programa existencial e afinal até onde ele não deve ir como espaço cuidado e humanizado?
“O habitar não está limitado só ao habitat, ao universo doméstico... O conforto este termo franglês que designa... estar bem num sítio é um objetivo tão pertinente para o habitat como para a escola, a biblioteca, a oficina ou o ginásio... espera-se... que a cidade seja habitável… que o peão encontre mais do que um passeio obstruído para deambular..., que seja um espaço onde o ancião possa dispor de um banco para retomar o fôlego, a criança de um caminho protegido para ir para a escola ou a casa de outros jovens… esta habitabilidade pensada para corpos frágeis não estaria completa se a sua disposição não tivesse em conta a qualidade dos espaços atravessados, sequência de imagens percebidas ao ritmo do caminhar” (Daniel Pinson, 1996, p.96).(1) Tal como refere Joaquín Arnau (2000) (2) “a dialética da Cidade e da Casa é a do todo e das partes. A questão do que surgiu primeiro, na história da Arquitetura, é totalmente irrelevante. Seja como for, as casas fazem parte da cidade, que totaliza o seu sentido… Em qualquer casa, no entanto, há uma certa vocação de cidade. Não é concebível uma casa isolada. Fisicamente pode ser; economicamente, não… Se a casa não é peça de cidade e subsiste .. a casa é a cidade... Peça de cidade ou pequena cidade em si mesma, cidadela, a casa traz consigo a qualidade urbana. E a Arquitetura, através da casa, urbaniza a paisagem... A cidade, como diz Alberti, é uma casa grande.”
Falámos das escalas como níveis, como camadas sobrepostas, mas, naturalmente, a escala é também desenho específico e seja numa acepção literal seja numa mais lata é realmente um conceito fundamental no espaço arquitetônico.
É assim mesmo o habitar. É e tem de ser cumprido como um verdadeiro programa existencial, como se fossem três habitar (es) interactuantes e complementares:
. Público – nos espaços da cidade e destes aos espaços íntimos, mas abertos das vizinhanças
. Razoavelmente coletivo – nos espaços íntimos, mas abertos das vizinhanças e destes até à entrada das nossas casas
·. Privado, nos espaços da casa.
Lembrando o sempre essencial Norberg-Schulz pode-se dizer que para habitar em plenitude é necessário que se proporcione uma adequada capacidade de habitar como “programa existencial”, nestas três “dimensões” ou escalas e/ou tempos.”.
Por: Jocasta Mazocco Uliana

terça-feira, 29 de novembro de 2011

A condição humana

Para Hannah Arendt, em seu livro “A condição humana”, o termo público refere-se a dois fenômenos similares, porém não perfeitamente idênticos. Em primeiro lugar, tudo que é público pode ser visto ou ouvido por todos. Para nós a aparência – aquilo que é visto e ouvido por nós mesmos- constitui a realidade. Associado ao fato de que a realidade ocorre de algo que possa ser visto e escutado, até mesmo as forças da vida íntima – paixões, pensamentos – caracterizam uma espécie de existência duvidosa e obscura, até que sejam transformadas de modo a se tornarem adequadas à aparição pública; transformação decorrente na narração de histórias e na transposição de experiências individuais. Todas as vezes que se falam em coisas que só podem ser experimentadas na privatividade, esta retoma uma esfera na qual assumirá uma espécie de realidade, que independente de sua intensidade, jamais poderiam ter tido antes.
O sentimento mais intenso que conhecemos, é ao mesmo tempo, o mais privado e menos comunicável; não apenas por ser tratar da única experiência que somos incapazes de adequá-la a uma exposição pública, mas também por nos privar da percepção da realidade, a ponto de ser facilmente esquecida.
Visto que a nossa percepção da realidade depende da aparência e assim, da existência de uma esfera pública da qual possam emergir da treva da existência, até mesmo a meia-luz que ilumina a nossa vida privada e íntima deriva, da luz muito mais intensa da esfera pública, porém há coisas que não suportam a luz da constante presença de outros na esfera pública. O que não significa que as questões privadas sejam irrelevantes, pelo contrário, muitos assuntos relevantes só podem sobreviver na esfera privada.
O que a esfera pública considera irrelevante pode ser tão contagiante que pode ser considerado como modo de vida, sem que o caráter essencialmente privado seja alterado.
Em segundo lugar, o termo público significa o próprio mundo, comum a todos e diferente do lugar que nos cabe dentro dele. Este mundo, não é idêntico à natureza como espaço limitado para o movimento dos homens. A esfera pública atribuída como mundo comum, reúne-nos na companhia uns dos outros e evitam conflitos; o que torna tão difícil a convivência em sociedade de massas é fato de que o mundo entre elas perdeu a força de mantê-las unidas, de relacioná-las e separá-las.
 Para manter uma comunidade destituída de interesse num mundo comum, é conhecido apenas um princípio que encontra um vínculo entre os homens, forte o bastante para substituir o mundo. A edificação da caridade em todas as relações humanas proposta pela antiga filosofia cristã de Agostinho corresponde claramente à experiência geral do amor, que é ao mesmo tempo diferente deste último por ser algo que se interpõe entre os homens. Embora o vínculo entre as pessoas seja incapaz de criar uma esfera pública própria, é adequado ao princípio fundamental cristão de guiar por este mundo um grupo de pessoas essencialmente situadas fora dele.

Livro "A condição Humana" de Hannah Arendt.
(Por Larissa Pereira Fraga)

“A casa sem paredes"

Como Vilanova Artigas já dizia: “A casa não termina na soleira da porta.
Entendemos como casa, habitação, as tradicionais, que possuem portas, paredes, telhados, mas esquecemos de que existem “habitações” que não possuem estas identidades, mas que cumprem o mesmo papel. Os caminhoneiros são um exemplo deste tipo de habitação. Usam a cabine do caminhão, como sala, quando em seu painel vêm as imagens mais diversas durante o dia, usam como quarto o sofá para dormir e descanso, cozinham em paradas com seus fogões a bordo e nesse veículo, fazem suas moradias, habitações, andam com seu trabalho e trabalham em casa.
Quem disse que precisamos de paredes e telhado para habitarmos?
Por: Jocasta Mazocco Uliana

Redefinindo a esfera pública

Embora a arquitetura, desde o Renascimento, tenha sido caracteriza como humanista e que as idéias que envolvam este conceito, desde o tempo de Alberti, tenham incluído uma visão orientada para o sentido social do termo, com a necessidade se servir a sociedade, por si só, a arquitetura encontra-se destituída de voz e revela-se ineficiente perante uma tragédia como o 11 de setembro.
Na realidade atual, é de caráter fundamental examinar a arquitetura refletindo sobre conceitos humanistas e heróico, social e individual. Desde o século XVIII, tem sido de sua responsabilidade relacionar-se, concretizar e reformar a sociedade; esse desejo tem sido transformado no campo da utopia e da realidade, sofrendo diversas derrotas. Acredita-se que nunca houve um momento tão propício para revisitar a questões de responsabilidades sociais referente à arquitetura; esta posição justifica-se pelo fato de que, pela primeira vez, a arquitetura surge como fenômeno da mídia e que ao longo da última década foi utilizada de modo justificável, sendo um instrumento de revitalização do interesse por instituições públicas e assim, pela primeira vez, a arquitetura tem uma projeção correspondente aos seus conteúdos.
A arquitetura caracterizou-se como “segundo plano” em muitos momentos da cultura moderna, permanecendo inserida em um estado de abstração, com a pretensão de alcançar um lugar nos debates referentes às formas culturais para valores da sociedade. Semelhantes momentos característicos em períodos de guerra e destruição: a arquitetura enquanto sinal de permanência transforma-se no sinal da transitoriedade das suas ruínas. Ao longo dessas épocas, os debates sobre a arquitetura evitaram uma visão demasiado especializada do mundo e entraram na arena pública, parecendo menos preocupada com as nuances da estética ou da tecnologia. Desde o acontecimento de 11 de setembro de 2001, os momentos de evidência do arquitetônico-cultural têm sido destorcidos pelos atos de terrorismo, que vem provocando a ruptura ou a condensação entre si. Estes atos complicam-se na medida em que o local do World Trade Center, representava para muitos os resultados desafiadores de uma luta já antiga sobre o simbólico e o funcional. Edifícios que se transformaram, durante a destruição, em ícones de um discurso a três tempos: na arquitetura, o da necessidade de uma afirmação de valores contínuos da modernidade e das suas formas: na política, o da necessidade de reconstruir perante a derrota e a ameaça; e o mais árduo, em memoriam, a necessidade de ver o local como memorial de milhares de vítimas do ataque, como local de reflexão. 
Para Anthony Vidler, um dos maiores problemas resultado do desastre do World Trade Center e que a arquitetura pode buscar soluções, é a apropriação do contexto urbano enquanto lugar central para trabalhar e viver e que sejam criadas novas iniciativas, que promovessem a colaboração entre escolas e profissionais no intuito de redefinir a esfera pública.
No novo espaço público do século XXI, novo e criador, a proposta do projeto de reconstrução do local do World Trade Center, deveria propor um local de aspirações, suficiente capaz de responder à tripla questão evocada pelo lugar: resposta heróica a uma agressão da mesma natureza da guerra; resposta arquitetônica aos edifícios destruídos; resposta urbana face às necessidades emergentes; e, sobrepondo-se a todas estas, resposta a necessidade de construção de um memorial e de memória.
Mas para isso, os arquitetos necessitam aceitar o desafio que se aproxima da dimensão de um New Deal para o domínio público da arquitetura. Tal desafio deverá ser definido nas escolas de arquitetura, e será finalidade de nosso trabalho.

Artigo de Anthony Vidler - site Vitruvius
(Por Larissa Pereira Fraga)

domingo, 27 de novembro de 2011

Projetos que buscam resgatar a dignidade dos moradores de rua

Enquanto grande parte da população age com indiferença em relação aos moradores de rua, há grupos que buscam resgatar a dignidade dessas pessoas, desenvolvendo projetos de auxilio, porém cada projeto tem objetivos específicos.

Alguns projetos tem como objetivo oferecer integração social e profissional a pessoas em situação de rua, através de oficinas de artesanato e exposição de peças, como o projeto Ruarte, desenvolvido pela rede de estacionamentos Estapar em parceria com o Fórum das Organizações que Trabalham com a População de Rua. O projeto promove exposições e comercialização dos materiais produzidos por moradores de rua, buscando locais e parceiros que apóiem a iniciativa. O trabalho desenvolvido nas oficinas ensina o morador de rua a transformar o que é tratado como lixo, em artesanato. Segundo a responsável pelo setor social da Estapar "o contato gerado a partir da venda do artesanato ajuda o morador de rua a se socializar pois, na rua, é difícil haver algum vínculo. Além disso, gera um forte impacto dentro das organizações que promovem o Ruarte, o que ajuda a fortalecê-la também", além disso, outro fator contribuinte para socialização do morador de rua, segundo ela "é que ele vê o valor do que produz e sabe que, o que aprende e faz, tem resultado e retorno financeiro, o que o faz se sentir de novo parte da sociedade".

Há também projetos que buscam alfabetizar esses moradores de rua, como o desenvolvido no município de Curitiba, por iniciativa da Fundação de Ação Social (FAS) em parceria com a Secretaria Municipal de Educação. Porém, mesmo havendo uma proposta pedagógica de ensino que desde o início já sofreu várias alterações para atender as necessidades específicas desse público, ainda não está suficientemente adaptada. Além disso, a abrangência e a duração do curso são bastante limitadas, longe de resolver os problemas das pessoas que vivem nessa situação.

Outros projetos buscam amparar, esses moradores, como o Centro de Referência da População de Rua de Belo Horizonte que realiza um trabalho que pretende restituir a dignidade dessas pessoas, garantindo direitos e assegurando a cidadania dos freqüentadores do espaço, aberto à população de rua para lavar roupas, tomar banho, guardar pertences pessoais, ter acesso à internet, cineclube e biblioteca, além de oferecer oficinas de Cultura Popular e Mosaico.

Mas ainda assim, em meio a esses projetos desenvolvidos, muitos tentando, inclusive resgatar essas pessoas das ruas, muitos ainda optam por permanecerem na rua, pois fizeram dela seu espaço para habitar.

(Por Camila Dayanne Lira)

Banalização da questão das pessoas em situação de rua

A miséria que as pessoas em situação de rua representam, é incômodo para a sociedade em geral, como já discutido na postagem sobre “Pessoas Paisagem e Invisibilidade Pública”, porém está constantemente presente na realidade atual, principalmente das grandes cidades. Atualmente quando algo se torna comum, corriqueiro, acaba sendo banalizado, mesmo temas tão sérias como a questão social dos moradores de rua.
Essa situação de banalização pode ser exemplificada por uma cena do filme “À primeira vista“ em que um cego volta à enxergar e ao andar pelas ruas com a namorada, quando vê um morador de rua, pergunta a ela o que é, e ela responde que não é nada.
Essa banalização gera a indiferença discutida na postagem sobre “Pessoas Paisagem e Invisibilidade Pública”. É fato que a indiferença e a insensibilidade estão diretamente ligados, de maneira que, essa insensibilidade tem sido agente de crueldades que têm ocorrido contra moradores de rua, como relata a reportagem “Violência faz parte do cotidiano de moradores de rua”, do Jornal Diário do Grande ABC:

“Na madrugada do dia 11 de maio, cinco moradores de rua foram assassinados enquanto dormiam no bairro do Jaçanã, região norte de São Paulo.[..] O caso emblemático chama a atenção para a violência contra a população que vive nas ruas[..]. Apesar da chacina ser um fato isolado nas estatísticas, atos como agressões, maus-tratos e intimidações são rotina na vida dos moradores de rua da cidade.” 

Além da violência, esses moradores de rua, estigmatizados por grande parte da população, sofrem também com a rejeição. Inclusive, ao buscarem meios de sobrevivência, crianças e adultos vão para os semáforos, fazer malabarismos e acrobacias, vender balas, limpar pára-brisas de carros ou apenas pedir ajuda de qualquer tipo, porém muitas pessoas nos carros ficam aguardando apressadamente a abertura dos semáforos para se livrarem da situação, as vezes com receio de que sejam assaltados (modo de pensar que vem da estigmatização desses moradores de rua), ou até mesmo, com uma indiferença total, como se o fato não lhes dissesse respeito.


Diante disso, podemos perceber a intensa relação que se dá entre pobreza, exclusão, desigualdade e população em situação de rua.

(Por Camila Dayanne Lira)

“Homens Invisíveis”

Diante da situação de renegação das pessoas em situação de rua por parte da sociedade, Thiago Lobato escreveu o texto abaixo, criando uma narrativa onde expressa o drama desses moradores de rua que sofrem com a invisibilidade e a própria falta de identidade.O texto complementa, exemplificando, o assunto discutido na postagem sobre "Pessoas Paisagem e Invisibilidade Pública".

"O seu olhar vagava distraído pela rua enquanto mastigava com seus poucos dentes restantes um pedaço de pão velho, talvez o único alimento do dia. Chegara a um ponto em que não sabia mais da sua própria história, quem era, de onde tinha vindo, se tinha família. Estranhamente o passado havia se tornado tão incerto quanto o futuro e tanto um quanto outro, não eram alvo de qualquer interesse. Sentado na calçada de uma rua qualquer em uma cidade qualquer, via o tempo passar cada vez mais devagar. Desejava que fosse o contrário, queria chegar ao fim de uma vez, queria poder pular as páginas direto para o final da vida que, sabia, seria triste e solitário. Efetivamente não existia, não era ninguém, não tinha sequer nome. Possuía apenas uma roupa esfarrapada e um sapato velho que achara no lixo. Apesar da razão estar abalada, conseguia pensar o suficiente para sentir, e sentia raiva de Deus, da vida, sentia raiva por ter tido tal destino. Um desperdício é o que fora sua existência. Anos jogados ao léu, era como se não tivesse nunca vivido, mas sim apenas existido em um mundo que o ignorava. Estava ali sozinho, perambulando pelas ruas de um lugar qualquer, sem rumo, sem destino, sem vida. Já não sentia dor física apesar de ser velho, nem mesmo quando era surrado por outros como ele, seus semelhantes só que mais jovens, durante a disputa por um pouco de comida do lixo, ou um lugar sob a marquise de algum prédio durante a madrugada. Via as pessoas passando, aquelas pessoas comuns, que tinham uma vida, uma casa, uma família talvez, aquelas pessoas que nem que tivesse sido por uma fração de momento, tinham sorrido, tinham sentido algo além daquele vazio, daquela raiva e daquele eterno não-ser. Sentia medo, medo que o tempo demorasse mais a passar prolongando o seu sofrimento. Aquele sentimento de injustiça e aquela permanente dúvida de porquê ele, porquê ele e não outros, tinha começado e acabado assim, um nada, só era amenizada quando conseguia, por sorte, juntar moedas o bastante para comprar um pouco de pinga. O álcool lhe amortecia a dor e lhe aquecia o corpo durante as intermináveis noites. Não se abalava mais em viver entre a sujeira, entre os animais, em fazer suas necessidades no chão e limpar-se com as mesmas mãos que comia, sempre fora assim desde que sua falha memória conseguia lembrar. Não conseguia se lembrar desde quando usava os mesmos trajes. Se é que se podia chamar aquilo de trajes, um amontoado de panos furados de tão velhos e tão sujos que emanavam um odor horrível a todo tempo, assim como o seu corpo. Gostaria de um banho, quem sabe. Não sabia os dias, não sabia as horas, não sabia o ano, não sabia nada, assim como era, ou melhor, não era coisa alguma. Não tinha amigo nenhum, nunca tivera. Tinha apenas companheiros de não-existência, outros que, como ele, tinham como única razão de abrir os olhos a cada manhã, estarem um dia mais próximos do fim.
Naquele dia amanheceu defunto, em paz. Encostado na porta da Prefeitura da cidade, causou repulsa a um dos funcionários que lá trabalhavam, que ao chegar e vê-lo ali jogado, perguntou para outro que o acompanhava se ele achava que o sujeito estava morto, no que o outro respondeu que não, pois só podia morrer que algum dia tinha estado vivo.". Thiago Lobato


(Por Camila Dayanne Lira)